A TV só deixa burro quem quer
Intelectuais tratam a TV como se fosse uma máquina de fabricar idiotas, uma ferramenta de alienação diária, um tubo sugador de individualidades. Mas essa generalização não ajuda muito e, cada vez mais, não bate com a realidade: quem quiser ver TV de qualidade e souber procurar, hoje em dia, vai encontrá-la. E muita gente está fazendo isso. É comum que num jantar ou encontro de amigos o assunto não sejam bons filmes como A Origem ou Ilha do Medo, mas seriados e programas de TV. Quantas conversas recentes não foram sobre as saudades que Roma e Os Sopranos deixaram – e que até certo ponto são compensadas pelos DVDs, campeões de venda? Ou sobre as risadas que Two and a Half Men ou Mad Men não param de causar? Ou sobre a estranha personagem que é o doutor House, com sua língua de víbora e coração de manteiga?Não é de hoje que a TV tem muitas coisas boas. Seinfeld, por exemplo, marcou uma geração de uma maneira que ainda não foi bem compreendida. As telenovelas brasileiras antes pareciam melhores, como Roque Santeiro e Vale Tudo, porque entrelaçadas com o momento histórico sem perder o que é folhetinesco, com romance, humor e suspense. Programas “cult” como L’Apostrophe e Bouillon de Culture, com ótimas entrevistas com escritores, não existem mais. Aqueles especiais do Globo Repórter sobre Tom Jobim, por exemplo, e as séries literárias como Grande Sertão: Veredas e O Tempo e o Vento nunca foram superados. Mas vamos ser honestos: nos anos 80 e mesmo 90, o que mais se tinha na TV eram os “enlatados” americanos, bobagens em horário nobre diário como Casal 20 e Magnum. Em muitas áreas – jazz, cinema, futebol – o saudosismo tem lá suas razões. Na TV, não.
Desde a chegada da TV por assinatura, o espaço para produções de grande nível – diálogos, roteiros, atuações – aumentou, permitindo um mínimo de opção para quem não suporta os programas de auditório e a ficção arrastada da TV aberta, ou mesmo os jogos de futebol. Documentários excelentes têm sido exibidos no GNT, na HBO e na Globo News. A série sobre natureza da BBC, Life, é um marco do qual se falará daqui a muitos anos. Qualquer episódio de The Good Wife ou Fringe é mais bem escrito e dirigido que todas as novelas somadas. Não por acaso, o diretor argentino do excelente longa O Segredo dos Seus Olhos, Juan José Campanella, dirigiu alguns de Law & Order – assim como Quentin Tarantino certa vez dirigiu episódios de E.R. (Plantão Médico), outro seriado que fez história.
Mais recentemente, Martin Scorsese se engajou como diretor e produtor no ótimo O Império do Contrabando, um verdadeiro romance realista em capítulos, em cartaz na HBO aos domingos. No Brasil, o diretor do filme Lavoura Arcaica, Luiz Fernando Carvalho, fez trabalhos como Os Maias e Afinal, O Que Querem as Mulheres?. Outros canais oferecem shows memoráveis, como K.D. Lang no Multishow HD, e programas musicais como o de Jools Holland, sempre com ótimos convidados, no HBO Plus. Eu poderia citar ainda programas de jornalismo, humor, sexualidade, “talk show”, etc. Mas acho que está mais provado de que a TV nem sempre emana o tédio. Basta um espectador atento.
Uriel Martins

Nenhum comentário:
Postar um comentário